Carregando...
Publicado por SeuGado.com Gado

Muito além do necessário

Agricultura 24/01 07:01

Projeto no extremo norte do Piauí confirma viabilidade de se obter produções acima de 30@/ha

 

É viável produzir 70 arrobas de carne por hectare, mais de 10 vezes a média brasileira e duas vezes e meia o que o professor Moacyr Corsi, da Esalq/USP, preconiza como uma pecuária intensiva e competitiva com a agricultura? Ou esse é mais um número lançado no papel como desafio?

 

Pois é o que conseguiu uma fazenda localizada no município de Parnaíba, no extremo norte do Piauí, já próximo do Oceano Atlântico, na divisa com o Maranhão. Ela integra o Projeto Arroba Ideal, lançado pela Cooperideal – Cooperativa para a Inovação e Desenvolvimento da Atividade Leiteira –, grupo de técnicos que se uniu, em 2009, para atender a projetos de intensificação, primeiramente com gado de leite e, em seguida, com gado de corte.

 

O resultado, excepcional, diz respeito aos primeiros 18 meses de implantação do projeto na Fazenda Agropecuária Cooperideal, pertencente à própria cooperativa de técnicos, que decidiram implementar no corte os conceitos de intensificação aplicados no leite, o principal deles a altíssima produtividade por área.

 

Mais elementos a causar surpresa: a propriedade, de apenas 162 ha, está numa região extremamente arenosa (apenas 11% de argila; 86% de areia), o que, por si só, já tornaria as coisas mais difíceis para uma produtividade média, quanto mais para uma altíssima; e os animais não são suplementados. A explicação para o feito é que a fazenda está no perímetro de irrigação dos projetos do antigo Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca), residindo aí o segredo da intensificação: a ferti-irrigação de uma área de 40 ha, com o uso de um pivô central, onde foi implantado o panicum mombaça, um dos capins mais produtivos à disposição dos pecuaristas brasileiros.

 

Duas metades - A área do pivô é dividida em duas, como se se cortasse um queijo ao meio: numa metade ficam os animais de recria e na outra, os de engorda. São Nelore e cruzados, comprados nas praças de Bacabal e Imperatriz, 600 km distante de Parnaíba. O pastejo é rotacionado, com os 20 ha de cada metade da área subdivididos em 12 piquetes de 1,5 ha cada. Os animais de recria entram na área do pivô com peso entre 6 e 7@ e saem para a outra área com 11- 12@; passam, então para a fase de engorda, de onde sairão, com peso entre 16 e17@, para as mãos de compradores que se encarregarão de enviá-los ao abate.

 

Chama a atenção a uniformidade do capim em toda a área. Isso se deve às condições climáticas favoráveis e ao manejo. Segundo informa o engenheiro agrônomo Marcelo de Rezende, presidente da Cooperideal, o clima ajuda principalmente no inverno, que é extremamente ameno, com temperaturas mínimas de 22 a 23º, e elevada luminosidade, o que favorece o desenvolvimento do capim, devidamente abastecido pela água da irrigação.

 

O período de chuva vai de janeiro a maio, com precipitação média de apenas 700 a 800 mm, o que exige o funcionamento do pivô, sempre que não ocorra chuva. No manejo, entram dois aspectos fundamentais: o planejamento forrageiro – a partir das necessidades da pastagem e do ganho de peso projetado dos animais – e o manejo do próprio pasto, a partir do conceito de altura de entrada e saída dos animais de cada piquete.

 

Na média, eles ficam no mínimo dois e no máximo três dias em cada piquete, de forma a que cada área descanse por 28 a 30 dias. A adubação é feita pelo próprio pivô central, com componentes químicos que levam em consideração o histórico do solo do piquete e análise bromatológica do capim.

 

“Na média, a conta considera uma necessidade de 250 gramas de nitrogênio e 100 gramas de potássio para cada unidade animal por dia. O fósforo depende da análise de solo, mas consideramos 100 kg de P2O5/ha/ano como uma quantidade suficiente para repor o que é extraído pelo capim através da ferti-irrigação”, diz Marcelo.

 

O teor de proteína do mombaça é altíssimo: 18%, com 62,5% de energia (NDT). A ferti-irrigação é feita a cada seis ou sete dias. A quantidade e a composição do sal mineral são fornecidas de acordo com o consumo e a qualidade da forragem, mas na média são 60 gramas/ dia com 4% de fósforo.

 

Resultados animadores - O primeiro resultado do Programa @ Ideal na fazenda de Parnaíba foi proveniente da terminação de 300 bois, divididos em dois lotes de 150 e que passaram por dois ciclos em pastejo rotacionado em 2016, o primeiro de janeiro a maio e o segundo, de junho a dezembro. Os animais entraram com 6-7@ de peso e saíram com 16@. As 9,5@ ganhas no ano desses 300 animais, numa área de 40 ha, significam 71@/ha. Na média entre os dois períodos, a lotação final ficou em 6,8 UA/ha, com ganho de peso diário de 800 gramas/dia.

 

Segundo Marcelo de Rezende, o custo de produção ficou em R$ 102/@, um terço disso gasto com fertilidade do solo (aplicação de NPK, mais micronutrientes, no sistema de ferti-irrigação, aproveitando o próprio pivô central). Os outros dois terços foram divididos entre mão-de-obra (dois funcionários e um diarista) e taxas locais (manutenção do perímetro irrigado) e despesas gerais, como energia elétrica, sal mineral, medicamentos, combustível e impostos.

 

Como o preço médio de venda dos animais foi de R$ 148/@, o sistema deixou uma margem operacional de R$ 46/@, o que resulta em R$ 3.266 de margem por ha ano. Um número excelente, mesmo considerando que dele precisam ser abatidos depreciação de máquinas e instalações e remuneração do capital investido (terra, animais e estrutura (inclusive a amortização do investimento no pivô central). Segundo Marcelo de Rezende, só se poderá falar em lucro líquido quando toda a estrutura da fazenda estiver sendo explorada, o que não acontece hoje (não existem outras áreas formadas com capim, somente a do pivô).

 

Custos devem baixar - Para o lote de 2017, a previsão é de um custo de produção menor em função do aumento de animais na área (de 300 para 389), o que ajudará na diluição de custos. A previsão é de que no segundo semestre um segundo pivô central de 40 ha entre em funcionamento, ajudando também na diluição dos custos operacionais da fazenda.

 

Segundo Rezende, foram investidos R$ 15.000/ha para implantação do sistema baseado no pivô central (R$ 600.000 nos 40 ha), financiados pelo Banco do Nordeste. “Nosso objetivo é ter uma renda bruta de R$ 5.000/ha ano”, diz o presidente da Cooperideal, que conta com 17 técnicos que atendem 1.200 clientes em fazendas leiteiras e 20 no corte, espalhados por 17 Estados da Federação.

 

O objetivo do negócio é a obtenção de uma produtividade superior a 100@/ha/ano. Para chegar nesse número extraordinário, a conta que ele faz é a venda de 400 cabeças por ano, cada uma delas deixando 10@ de ganho, o que significa produção de 4.000@ em 40 ha ou 100@/ha/ano. Algo que, pelo jeito, está muito próximo de acontecer. Marcelo de Rezende arremata: “Nossa intenção é propagar esse modelo de pecuária intensiva na região, trabalhando com um conceito de gestão de processo em troca de participação nos resultados do projeto.” Segundo ele, a mesma metodologia vem sendo aplicada em outras cinco fazendas da região, mas o conceito pode, com adaptações, ser ampliado para fazendas de outras regiões brasileiras.

 

*Matéria publicada originalmente na edição 438 da Revista DBO.

Fonte: Portal DBO
Comentários
logo-seugado

Para ter acesso completo a esse conteúdo faça login ou cadastre-se grátis.