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Publicado por SeuGado.com Gado

Subsolagem corretiva: tecnologia que se consolida

Tecnologia e inovação 30/01 07:01

Perfil do solo deve ser corrigido em pelo menos 1 metro de profundidade para melhorar a produtividade em todas as lavouras

 

Em 2012, iniciei um trabalho em cana-de-açúcar, no Estado de São Paulo, onde através do processo de levantamento pedológico para classificação de ambiente de produção, foram observados alguns problemas e possíveis soluções. Este processo analisa o solo química e fisicamente até 1 metro de profundidade e a análise determinante para a classificação do solo é a amostra de 0,8 a 1,0 m (eutrófico V% > 50%, mesotrófico V% de 30-50%, distrófico V% < 30%, álico Al >50%), quanto maior o V% (saturação de bases) em profundidade, maior o potencial produtivo. De acordo com dados do Instituto Agronômico de Campinas estas diferenças podem chegar a 60 toneladas de cana por hectare em cana de terceiro corte, além de influenciar diretamente a longevidade do canavial.

 

Em talhões com baixas produtividades encontravam-se solos com elevada concentração de nutrientes em superfície e fertilidade corrigida somente nos primeiros 10 a 15 cm. Em profundidade, elevada acidez, alumínio tóxico, baixo V%, cálcio, magnésio e fósforo, além de apresentar uma camada compactada entre 30 e 40 cm. Consequentemente, não havia formação de sistema radicular e a suscetibilidade ao deficit hídrico muito frequente, chegando ao ponto da cana murchar no mês de fevereiro, mesmo tendo água no solo.

 

Para minimizar este problema foi desenvolvido um subsolador aplicador de corretivo em profundidade, com distância entre hastes de 0,75 m no preparo do solo para plantio e 1,5 m para cultivo de cana soca. Também foi utilizado como corretivo o óxido de cálcio e magnésio com 60% de CaO, 30% de  MgO e PRNT de 180%. Para surpresa, após a aplicação houve rápida correção do solo até 1 metro de profundidade, mudando a classificação do ambiente de produção para melhor, a cana respondeu rapidamente em produtividade e este trabalho foi transferido para grãos já em 2013.

 

O problema de fertilidade física e química observado nos canaviais de São Paulo também é encontrado em todo Brasil, principalmente em solo sob cerrado e cultivado no sistema de plantio direto, com elevada acidez em todo perfil, concentração da correção na superfície e compactação generalizada.

 

A subsolagem corretiva, com distância entre hastes de 0,75 m é suficiente para correção do sistema de produção, pois cria pontos corrigidos a 1 metro de profundidade a cada 0,75 m, com pH em água próximo de 6,5 e V% entre 70- 80%, aumenta a disponibilidade de fósforo que está fixado por ferro e alumínio, saindo de 1 ppm em resina para 15 ppm. Esta correção é complementar, não substitui o manejo da fertilidade em superfície, portanto, as práticas de calagem, gessagem e fosfatagem em superfície continuam normalmente. O uso de gesso agrícola permite aprofundar raízes em ambiente ácido, uma vez que neutraliza alumínio, fornece cálcio e não altera o pH. Como existem pontos com pH próximo da neutralidade a cada 0,75 m e pH mais ácido no intervalo das hastes, forma-se assim um gradiente de pH em profundidade que permite a disponibilidade de todos os macro e micronutrientes, pois o sistema radicular está explorando volumes de solo, que outrora eram inatingíveis. É importante manter um bom manejo de palhada, cultivando plantas de cobertura, deixando o solo protegido o ano inteiro. Suas raízes profundas incorporam matéria orgânica e, no caso de gramíneas, aumenta o pH pela absorção de nitrato em profundidade.

 

A subsolagem, quando feita tradicionalmente, tem baixo efeito residual, mas quando simultaneamente faz a correção química, o efeito é muito mais duradouro, pois as raízes das plantas ao se desenvolverem nos pontos de correção intensificarão ainda mais a descompactação, aumentando a sinergia entre os métodos físico, químico e biológico de manejo da fertilidade do solo em profundidade.

 

Existe uma regra em subsolagem que a distância entre hastes é a profundidade de trabalho multiplicado por 1,5, então, ao subsolar a 0,5 m de profundidade a distância das hastes pode ser de 0,75 m, aumentando a eficiência operacional, com maior rendimento e menor demanda de potência por ha. Como a camada compactada chega a 40, até 45 cm de profundidade, não adianta apenas riscar superficialmente, é preciso atravessar esta laje compactada e colocar o corretivo em profundidade. Embora tenha um custo inicial relativamente alto, a tecnologia se paga logo no primeiro ano e fica um residual para, pelo menos 4 anos, ou 8 safras para quem faz dois cultivos anuais. Como a acidificação é muito baixa em profundidade e o sistema radicular profundo dificulta a recompactação, é natural que seu efeito se prolongue por vários anos.

 

Após 5 anos, esta tecnologia está espalhada por todo Brasil, nas culturas de cana-de-açúcar, perenes, grãos e pastagem. Os equipamentos evoluíram para 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 hastes e configurações conforme a necessidade do produtor. Tenho acompanhado resultados nos estados do RS, PR, SP, MG, MS, MT, TO, GO, BA, MA, PB e RO. Na cultura da soja, o aumento médio de produtividade é de 8 sc/ha, no milho 20 sc/ha e na cana 12 t/ha.

 

Existia no campo uma necessidade latente de corrigir o solo física e quimicamente a 1 metro ou mais. Todo agricultor queria fazer, mas não sabia como. A falta de equipamentos e corretivos com baixa dosagem e alta reatividade não permitiam esta prática, mas associação destes componentes viabilizou esta tecnologia.

 

Vivemos na era da informação. Como existia um vazio tecnológico para ser preenchido, associado à eficácia da tecnologia, tive a oportunidade de publicar dois artigos na revista Agro DBO, em fevereiro de 2014 e abril de 2015 que impulsionaram muito a divulgação destas informações. A internet facilitou muito a difusão entre os produtores, pois vídeos, resultados agronômicos e trocas de experiências são compartilhadas do Oiapoque ao Chuí em tempo real. Com isso, em apenas 5 anos, o manejo físico-químico do solo a 1 metro de profundidade foi consolidado tornando-se uma realidade.

 

Atualmente, o Brasil cultiva em torno de 60 milhões de ha. A safra 2016/2017 será recorde, atingindo 230 milhões de t de grãos, devido, principalmente, a regularidade climática. Pela interferência negativa do clima, a safra 2015/2016 produziu apenas 185 milhões de t, ou seja, 20% menos. Ao corrigir o solo em profundidade, através do manejo integrado do perfil do solo, com uso de manejo e matéria orgânica, gesso agrícola e subsolagem corretiva, será possível atingirmos 300 milhões de t de grãos nos próximos anos, sem aumentarmos a área.

 

Existe uma busca muito grande por novos materiais genéticos, o que é muito importante, mas vale lembrar que o que de fato importa é o Fenótipo, onde o Fenótipo é o resultado da interação Genética X Ambiente. A corrida pela genética está deixando esquecido o ambiente. Ao melhorarmos o ambiente, obteremos altos ganhos de produtividade com os mesmos materiais genéticos já existentes que, diga-se de passagem, são muito bons.

 

A subsolagem corretiva é uma tecnologia simples e consolidada, com resultados em todas as regiões produtoras do Brasil, em várias culturas, climas e tipos de solo, com ganho de produtividade de 10% a 20%. Acredito que não temos disponível outra ferramenta que aumente a produtividade nestes níveis no médio e longo prazos, portanto o produtor deve considerar em testar e beneficiar-se destas informações.

 

O Brasil já é o celeiro do mundo, mas o sistema de produção precisa ser sustentável e menos vulnerável ao clima, pois a correção de solo, apenas em superfície, aumenta muito o risco para o produtor rural. A tendência é aumentarmos as áreas de plantio, que por sua vez avançarão em zonas marginais de clima e solo, mais um motivo para o domínio da correção do perfil do solo a pelo menos 1 metro, pois a produtuvidade está na profundidade. 

 

*Matéria originalmente publicada na edição 91 da Revista Agro DBO.

Fonte: Portal DBO
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