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Publicado por SeuGado.com Gado

Raízes atrofiadas, nunca mais!

Agricultura 19/02/2018 06:02

Manejar adequadamente o solo, para melhorar a produtividade, é ciência que precisa evoluir, na prática, valorizando a biologia

 

Parabenizo Agro DBO pela publicação da trilogia de textos sobre a síndrome da raiz atrofiada em soja, autoria do engenheiro agrônomo Tsuioshi Yamada. Todo mundo concorda que um individuo, mesmo de elevado “pedigree social”, com pulmões e intestinos parcialmente ou quase totalmente inoperantes não vai poder usufruir de um banquete de comidas e bebidas de grife oferecidas por alta tecnologia, inclusive a digital. Ou vai?

 

As raízes das plantas são os intestinos (absorvem água e nutrientes; a rizosfera é o estômago) e os pulmões (incluindo o colo; absorvem o oxigênio para a respiração da planta, por isso da necessidade de bombear ar em um cultivo hidropônico de solução estática, do contrário a planta murcha e morre; o oxigênio produzido na fotólise da água durante o processo da fotossíntese seria um descarte para a planta). Ana Primavesi, quando ocorre algum problema fisiológico na cultura, sempre aconselha que se pergunte ao solo e às raízes. E a matéria orgânica (MO) no solo, também teria a função das fibras na digestão animal, já que dão funcionalidade ao trato digestivo. Posto isso, o check list de nosso sistema de produção deveria incluir uma análise das raízes. Elas devem ser abundantes, vigorosas e ocupar o maior volume de solo possível, inclusive em profundidade, sem impedimentos físicos, químicos e biológicos.

 

O primeiro texto da trilogia aborda o problema da toxidez de alumínio, por quantidade, em virtude do desequilíbrio com outros cátions. Em realidade se torna tóxico por deficiência múltipla de outros cátions, em especial dos divalentes como cálcio (envolvido na estabilidade e funcionalidade da parede celular, e da agregação das células), e pela fixação de fósforo, envolvido com os processos energéticos. Em solos com pH mais baixo, com baixo teor em MO e atividade biológica, o alumínio prepondera em solos de baixa CTC (Capacidade de Troca Catiônica), tornando-se tóxico, como toda solução monossalina. O fato novo que parece ter surpreendido foi que a maior disponibilidade de N para a planta, seja ela também pela fixação biológica, pode afetar o pH do solo, ou mais especificamente da rizosfera (o estômago das plantas; e com azia ninguém se alimenta direito). Não devemos banir a fixação biológica de N, mas começar a considerar seu efeito secundário negativo, que necessita ser corrigido, e é coisa fácil.

 

Recordemos que todos os sistemas de produção, independente de escala, constituem uma interação de diversas estruturas e processos, em equilíbrio dinâmico. Quando algo é alterado, diferente do que a planta está adaptada, ela vai sofrer de algum modo, se não forem feitas as correções necessárias. Tudo que aparecer em excesso por causa de desequilíbrio (em geral por redução ou falta de outros fatores), pode provocar danos agronômicos e econômicos. Até água em excesso pode ser danosa, mais ainda se faltar ar (oxigênio) na rizosfera.

 

No caso de redução de pH, de baixo teor de cálcio, de alto teor de alumínio, certamente a gente pode neutralizar o alumínio com uma fosfatagem (muito caro), ou alterar o pH com uma fonte de silicato, carbonato ou hidróxido de cálcio (óxido hidratado), ou aumentar o teor de cátions divalentes até mesmo com sulfato de cálcio (gesso). Mas, certamente o manejo adequado de MO no solo e na superfície do solo, em especial de gramíneas em rotação com a soja, vai ser determinante para que os resultados sejam mais exitosos.

 

No segundo artigo está muito bem abordada a questão do boro na fisiologia da planta. Deve ser destacada a importância do boro na permeabilidade da membrana celular e que permite a manutenção de potássio no local, necessário para a síntese de aminoácidos (participando de enzimas, e alocando energia na forma de carboidratos). Na falta de boro esses processos são prejudicados. Aqui posso agregar uma informação que verificava a campo, com hortaliças. Onde eram aplicados micronutrientes, com destaque para o boro, havia maior velocidadede de cicatrização de feridas das raízes e colo. As feridas cicatrizavam, criavam uma película seca em menos de um minuto. Onde não havia boro, a película (casquinha) de cicatrização não ocorria nem depois de dez minutos. Detalhe: o sabor da cenoura e beterraba eram doces e, sem o micro (incluindo o boro), tinham sabor aguado com leve nuance de amargoso. Também com cerejas de café, faço a degustação, e se estiverem doces, tudo bem, porém, se tiverem sabor sonso, problema a vista (pode ser falta de boro, magnésio, potássio, ou excesso de alumínio no solo).

 

Yamada caprichou nas considerações sobre o boro e seu manejo adequado, inclusive com a questão de que a calagem (necessária para corrigir acidez, também ampliada no processo da fixação biológica de N), deve ser realizada de forma adequada.

 

No capítulo três é abordado um aspecto químico artificial de atrofiamento de raízes, resultante da aplicação de glifosato. Este agroquímico, herbicida de excelente controle de plantas daninhas, por falhas no manejo racional integrado, vem se tornando um fator que chega a afetar a produtividade das culturas, pois indiretamente afeta o crescimento e desenvolvimento radicular. O glifosato foi inicialmente lançado como excelente complexante e imobilizador de minerais. Só que na planta isso pode resultar em deficiência de diversos cátions necessários para reações químicas essenciais de produção e transferência de energia ou de síntese de proteínas. Pois muitos desses metais são cofatores de enzimas que permitem que ocorram todos os processos químicos de decomposição e síntese de substâncias orgânicas de forma eficaz, especificamente, utilizando de forma mais racional a energia disponível.

 

Yamada descreve bem os processos metabólicos afetados pelo uso do glifosato. Em geral todos os defensivos têm algum efeito colateral menos ou mais severo sobre o metabolismo das plantas, e que se torna mais agudo quando o solo tiver baixo teor de MO, pouca atividade biológica diversificada e deficiência aguda de macroporos ou poros de aeração (bom a partir de 10%). Isso porque a planta vai enfrentar dificuldades fisiológicas, por falta de oxigênio, água quente, solo quente, e pode ser afetada seriamente por uma sobrecarga de moléculas orgânicas externas alterando seu metabolismo. Isso eu percebia em experimentos com agroquímicos em cultivos depauperados por se desenvolverem em solos inadequadamente manejados.

 

Sempre encontraremos pontos positivos e negativos das tecnologias novas. Devemos procurar reduzir os pontos negativos com ajustes ou práticas complementares, quando a tecnologia é muito importante. Não é por acaso que independente disso, foram desenvolvidas as práticas de manejo nutricional integrado, manejo integrado e até ecológico de pragas e patogenias, e também de plantas invasoras, o manejo integrado de práticas de conservação de solo e água em escala de microbacia hidrográfica. Mas quem as segue? Felizmente, no terceiro artigo, Yamada apresenta um manejo complementar que ameniza o impacto negativo do glifosato sobre o metabolismo vegetal, que resulta em perda de produtividade. Fiquei muito animado com os resultados expostos, e parabenizo Yamada por ter encontrado uma solução para o impasse da soja. Ele aconselha aplicação foliar de nutrientes, dentre eles o níquel, até pouco tempo considerado elemento tóxico, mas essencial em pequeníssimas doses, e que ajuda a fisiologia das plantas na defesa contra doenças.

 

Ao ler o texto e deparar com a figura 3, lembrei-me de imediato de uma foto de raízes de soja em plantio convencional e direto que eu havia feito em meados dos anos 1970, em Stº Ângelo (RS). Muito parecida. Na época não existia glifosato. Era simplesmente o efeito da deficiência aguda de macroporos no solo e a falta de palhada na superfície. Devo dizer que concordo com as conclusões finais do texto, considerando os fatores químicos.

 

Ficam faltando as considerações sobre o manejo adequado de solo, que poderiam reduzir em muito o drama dos produtores rurais que ao utilizarem insumos (inclusive OGMs) de qualidade, obtêm lucros aquém do esperado por não perguntarem às raízes de suas lavouras se o pacote tecnológico aplicado no sistema de produção é de seu agrado. Na Agro DBO nº 87, p. 34-37, do sistema vencedor em café, em Areado, MG, é mostrado um exemplo de como o manejo adequado do solo (intensificando e diversificando sua vida, além dos manejos físicos e químicos) reduz significativamente uma série de custos e de sobressaltos. E acreditem, pode ser replicado para todas as outras culturas, inclusive a soja. Certamente em integrações lavoura- pecuária ou, melhor ainda, na ILPF, conduzindo um processo sintrópico e não entrópico como aquele que ocorre atualmente de maneira generalizada.

 

Somente os produtores de bonsai procuram manter as raízes pouco desenvolvidas. Portanto, raiz curta só em cultivo de bonsai.

 

Obrigado Yamada, por ter tido o capricho nipônico de desvendar um mistério que afligia seriamente a todos os produtores. Fica faltando o texto sobre o manejo do solo e tuas experiências.

 

*Odo Primavesi é engenheiro agrônomo e ex-pesquisador da Embrapa.

 

**Matéria originalmente publicada na edição 89 da revista Agro DBO.

Fonte: Portal DBO
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