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Publicado por SeuGado.com Gado

Vacada livre no Pantanal

Meio Ambiente 21/12 07:12

Método adotado em fazendas do MT tira os bezerros das mães aos três meses e garante salto nos índices de prenhez de 45 para 70%

 

Em pouco menos de três anos, o pecuarista Fran cisco Golbery Albuquerque Costa, de 50 anos, estima ter elevado de R$ 300 para R$ 600/hectare/ano a rentabilidade de suas três fazendas conjugadas: Piúva, Gaivota e União. Para dar este salto, Golbery adotou uma técnica pouco usual em Poconé, a 120 km de Cuiabá, no Pantanal mato-grossense, onde se localizam as três propriedades. Há ainda uma terceira, a Fazenda São José, em Cáceres, a 240 km de Cuiabá. Ele adotou um protocolo de desmama precoce, levando sua bezerrada aos 3 meses de idade para as terras mais altas das fazendas conjugadas. Livres dos bezerros antes do tempo, as vacas têm à sua disposição exclusiva o pasto pantaneiro, desta vez na São José. Com a técnica, as fêmeas emprenham novamente em curto espaço de tempo. O pecuarista foi taxado de “louco”. A maioria dos colegas na região tinha certeza de que ele quebraria em pouco tempo. 

 


Para eles, Golbery estava apostando em algo que comprovadamente não funcionou no passado. Experiências feitas há quase duas décadas na região haviam sepultado a desmama precoce no Pantanal. Existem relatos, por exemplo, de que o procedimento propicia o surgimento de animais guachos, com limitações em seu desenvolvimento e consequente risco de morte. 

 


Em um sentido geral, o animal guacho seria aquele que não se desenvolveu por causa da deficiência de colostro e de leite materno. No caso da desmama precoce, a argumentação é de que o fenômeno ocorreria pelo fato de o animal não ter aprendido a comer ração e capim em substituição ao leite. No protocolo adotado por Golbery, porém, isso é ensinado ao bezerro. 

 


Até 2013, a taxa de prenhez não passava de 45% e o percentual de desmame ficava na faixa de 35%. Hoje ambos variam em torno de 70%, mesmo com o processo de reprodução todo ainda concentrado em monta natural. O que poucos entenderam é que o foco da desmama são as vacas, e não os bezerros. Apesar de admitir que o desempenho dos animais ao abate melhorou, encurtando o ciclo, engordando mais em menor tempo e com melhor rendimento de carcaça, até 2016 não houve preocupação em fazer uma avaliação comparativa, no abate, entre lotes oriundos do protocolo e aqueles de desmama convencional. “Como adotamos gradualmente a ferramenta, somente agora, em 2017, teremos animais para encaminhamento em lotes distintos ao frigorífico. Aí, sim, conseguiremos números concretos comparativos de desempenho em rendimento de carcaça”, explica o pecuarista. 

 


Por outro lado, todos os procedimentos têm como prioridade dar condições para elevar o desempenho reprodutivo das vacas. A começar na desmama, feita por volta dos 3 meses de idade. Na Fazenda São José não há estação definida, mas a monta ocorre geralmente a partir do fim de junho, quando as águas estão baixas, o pasto verdeja, as vacas se alimentam melhor e elevam o escore corporal. Antes do auge das enchentes anuais (geralmente entre novembro e fevereiro), machos e fêmeas desmamados precocemente são transferidos da propriedade em Cáceres para as fazendas conjugadas em Poconé. 

 


Os bezerros seguem o protocolo e a rotina das fazendas até o abate. Já as bezerras se alimentam de ração e bom pasto ao longo de meses e retornam para a fazenda no Pantanal um ano depois, quando os caminhões vão em busca de nova leva de animais da desmama precoce. “Como recebem boa nutrição todo este tempo, consigo enxertar minhas novilhas com 2 anos de idade. No Pantanal, sem a desmama precoce, isso naturalmente acontece só depois que a fêmea passa dos três anos”, conta o pecuarista. Para entender e adotar esta receita é fundamental conhecer as particularidades da pecuária pantaneira, geralmente de cria, feita de forma extensiva e em grandes propriedades (a Fazenda São José, de Golbery, tem 57.000 ha, sendo 20.000 ha intensamente alagados). Nos primeiros seis meses do ano a enchente inunda os pastos. “A vaca, com o bezerro ao pé, perde escore, pois não consegue pastar. Ela tem de sair em busca de comida e deixa ilhada a cria, que ainda não come capim, se alimentando apenas do leite. Quando ela volta, o bezerro suga tudo o que a vaca tem e a fêmea, desgastada, acaba não entrando em reprodução no ano seguinte. Já o pequeno animal, como fica só, passa a ser alvo de ataques de onças, serpentes e todos os problemas que uma enchente pode causar.”

 


Quem explica é o consultor técnico Luiz Guilherme Silveira, que vem aplicando o protocolo de desmama precoce (adotado por Golbery), cujo desenvolvimento e aperfeiçoamento foi capitaneado ao longo dos últimos oito anos pelo seu pai, o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Antônio Carlos Silveira. Só no Pantanal Mato-Grossense Silveira dá assistência a fazendas que, juntas, somavam quase 15.000 bezerros desmamados precocemente até o início de 2017. 

 


Segundo ele, após três meses tendo o bezerro ao pé, a vaca ainda não foi muito sugada (a desmama convencional no Pantanal é feita após um período de mama de aproximadamente nove meses) e a cria ainda sofre um bom efeito do colostro (imunidade), suportando melhor a viagem. “Entre as fazendas de Golbery o deslocamento é feito ao longo de 200 km em rodovia asfaltada e 80 km em estrada de terra, bem ruim de transitar, muito sacrificante para os animais. A viagem demora quase um dia”, conta. Como este trajeto é feito em época de intensas chuvas no Pantanal, todo o cuidado é pouco. “Em 2016, uma das carretas deslizou e caiu para um dos lados, machucando 20 bezerrinhos. Dois morreram”, relata.

 


Com o desmame precoce, Golbery também quer regular seu ?uxo de caixa, até então dependente da receita do segundo semestre, originária dos animais terminados em confinamento. Por enquanto está segurando a vacada na Fazenda São José até o rebanho pular de 5.200 para 10.000 matrizes (crescimento interno e compra de fêmeas). “A partir daí vou descartar vacas velhas e improdutivas, renovando até 20% das reprodutoras/ano. Elas chegarão às fazendas altas em janeiro e vão para o gancho em abril me garantindo receita também no primeiro semestre.” O consultor Silveira considera que a desmama precoce “quebra paradigmas muito fortes” na pecuária pantaneira. “Há 15 ou 20 anos esta técnica chegou a ser aplicada, mas muitos pecuaristas tradicionais alardearam que não funcionava, pois os animais ‘guaxavam’. Ao longo de quase uma década estudamos muito e chegamos no que acreditamos ser o diferencial para bons resultados: manejo e nutrição adequados. O nosso modelo propõe, dentre outras coisas, ensinar o animal a se alimentar.” 

 


“Escolinha” adapta - O protocolo desenvolvido na Unesp difere, em alguns pontos, da proposta de desmama precoce defendida pela Embrapa Pantanal e aplicada, na prática, a partir da Fazenda São Bento (9.200 ha), em Corumbá, Mato Grosso do Sul, ligada ao Grupo Votorantim (veja a edição 377, de março de 2012). Uma das particularidades que, segundo o consultor Silveira, “garante o sucesso” da proposta, é a exigência da Escolinha, denominação dada a uma área específica para o manejo de transição dos bezerros que chegam da planície, desmamados por volta dos três meses de idade. O período de adaptação proposto é de sete dias.

 


“A ideia da Escolinha surgiu da necessidade de garantir que todos os animais do lote aprendam a comer a ração, se socializem e percam o medo do cocho e dos dominantes. Deve ser adotada em uma pequena área, próxima da sede, para facilitar tratos diários, manejos de cura e proteção contra predadores. Funciona como um pequeno confinamento. Não tem dia santo, Natal ou ano-novo. O compromisso deve ser de tratamento adequado, qualificado e intensivo, dia após dia”, explica.

 


Quando chegam da Fazenda São José, os animais de Golbery seguem direto para o curral, onde são recebidos com água. Lá passam por um trabalho sanitário, pousam e seguem, no dia seguinte, para a Escolinha, que é estruturada em 10 espaços de 2.000 metros quadrados cada. Ao longo de uma semana vão ao pasto e voltam para a ração. A recomendação de Silveira é a de que o cocho tenha uma “boca” mínima de 30 cm e espaçamento de no mínimo 20 cm por cabeça. São três tratos diários, cada um de 330 gramas/animal. O parâmetro adotado para que o animal deixe definitivamente a Escolinha e vá para o pasto é quando o consumo médio do lote passe a girar entre 1 e 1,5 kg de ração/dia. 

 


Daí em diante o bezerro entra em um tratamento semi-intensivo por 4 meses. “Com 100 kg e comendo 1,5 kg de ração/dia, o cocho representará 70% de sua alimentação. Quando passar de 170 kg, o arraçoamento proverá 40% da dieta, uma evolução no processo para se tornar ruminante. O protocolo de desmama precoce vai dos três até aproximadamente sete meses de idade. Daí em diante o bezerro vai para a recria, seguindo o ritmo normal da fazenda”, detalha Silveira. O protocolo permite que Golbery utilize a mesma ração para os animais da Escolinha até o fim do semi-intensivo, aos sete meses de vida. Em geral é composta por 65% de milho, 25% de farelo de soja e 10% de núcleos minerais e aditivos. “Como estamos em evolução, tudo caminha para que futuramente adotemos fórmulas diferenciadas. Uma inicial e outra final”, avisa.

 


Na recria feita nas fazendas conjugadas em Poconé, a ração (0,3% do peso vivo) é composta por milho (70%), farelo de girassol (20%) e núcleos minerais, aditivos e ureia (10%). No confinamento da Fazenda União, a formulação muda para milho (60%), caroço de algodão (15%), capulho de algodão (15%), farelo de girassol (6%) e núcleo mineral, aditivos e ureia (4%). 

 


Golbery estima que sem a desmama precoce e com seu plantel atual de 5.200 vacas estaria tirando menos de 2.000 bezerros ano. “Em 2016 consegui 3.600, sendo mais de 2.000 oriundos do protocolo. Quanto gastei a mais? Perto de R$ 200/bezerro, considerando o milho a R$ 33/saca, colocado na fazenda”, revela.

 


Nas fazendas conjugadas de Golbery (área total de 5.200 ha, sendo 3.500 ha de pastagens) , esses animais (Nelore, em sua grande maioria) são terminados em confinamento com capacidade estática para 3.000 cabeças. “Os seus primeiros bois de desmama precoce morreram em 2016, os mais prematuros com idade entre 20 e 24 meses e peso médio de 18,5 @. Ainda mato boi de 36 meses, mas a partir de 2018 minha meta é trabalhar apenas com animais oriundos do protocolo”, prevê. 

 


Preço pela qualidade dos animais ele ainda não obtém do frigorífico (Golbery abate boa parte de seus animais no Minerva de Várzea Grande, MT), mas pela maior disponibilidade de animais vem conseguindo fechar contratos a termo para boi Europa. “Em 2016 cheguei a vender a arroba por R$ 150 enquanto a média por aqui era de R$ 132. Eu sabia que ia ter animal e por isso assumi o compromisso. Com a desmama precoce posso agora fazer boi por encomenda no Pantanal.” 

 


Resumo do protocolo de desmama precoce no Pantanal(*)

 


Na fazenda ou na área de cria
• Desmamar os bezerros entre dois e três meses de idade e aplicar a marca da fazenda ou grupo;
• Pesar e padronizar os lotes por peso;
• Vacinar e vermifugar;

 


Na fazenda ou áreas de recria
Na “Escolinha”
• Garantir área de movimentação média equivalente a 10 m2 por bezerro;
• Permanência média por sete dias ou até lote atingir ou superar o consumo médio de 1 kg/ração/dia;
• Manter bebedouro e cochos sempre limpos;
• Nos tratamentos (3 vezes de 0,33 kg/dia) fornecer ração de forma uniforme nos cochos;
• Cochos devem dar acesso a dois animais de um lado e três do outro por metro de extensão;

 


No semi-intensivo (pasto+cocho)
• Estabelecer áreas para até 200 bezerros, respeitando uma lotação de até 10 bezerros/ha;
• Preferir pastos com capins brizantha ou massai, com baixo porte e muitas folhas;
• Nos primeiros três dias de acesso ao piquete, segurar os animais no cocho por até 30 minutos, até que consumam toda a ração;
• Ao longo da primeira semana após o início do acesso ao piquete manter fornecimento de ração na ordem de 1 kg/animal/dia. Aumentar para 1,25 kg/animal/dia do 8º ao 14º dia. A partir do 15º dia elevar e manter o tratamento de cocho em 1,5 kg/animal/dia;

 

Tempo de duração do protocolo
• Machos: até 150 dias ou peso mínimo de 180 kg
• Fêmeas: até 120 dias ou peso mínimo de 160 kg

*Silveira Consultoria Pecuária e Nutrideal Nutrição Animal

 

 

Fonte: Revista DBO
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